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À conversa com Diana Eugénio

Diana Eugénio, autora do livro “A Doença: o Meu Maior Mestre”, fala-nos de como o corpo que que nos deveria proteger acabou, no caso da Diana, por desenvolver uma doença auto-imune que a debilita e as formas que a mesma encontrou para ultrapassar a doença.

Fala-nos um bocadinho do teu trajeto pessoal e profissional de modo a que as nossas leitoras te possam conhecer, perceber de onde vens, o que fazes, etc.

Eu estudei Engenharia Informática e trabalhei na área durante cerca de onze anos – mais coisa menos coisa. O Covid, o ano de 2020 e o 1o confinamento fizeram-me pensar em muitas coisas e olhar para dentro… resolvi que era o meu momento de viragem e decidi cortar com o meu trabalho em engenharia – não posso dizer que não gosto desta área; eu aprendi muito nesta área e (ela) dava-me estabilidade financeira o que é muito importante… mas não era a minha paixão. Neste momento, e porque estou de baixa médica devido a uma crise que tive no ano passado, estou a criar as condições para poder ter uma vida que me traga mais realização até porque a saúde também passa muito por aí… achei que era o meu momento.

Será que nos podes esclarecer e atendendo à tua experiência pessoal, o que é a Esclerose Múltipla, o impacto prático que esta problemática tem na vida das pessoas que a desenvolvem e quais os métodos mais convencionais para tratar esta doença?

A Esclerose Múltipla, sem entrar em detalhes técnicos, é uma doença auto-imune que pode afetar orgãos ou sistemas do corpo diferentes… por exemplo, o sistema nervoso no meu caso. Na minha visão e experiência, quem tem doenças auto-imunes percebe que é muito mais do que de repente o corpo nos começar a atacar… é um padrão emocional e/ou pensamentos diários que, ano após ano, é capaz de criar uma personalidade cada vez mais sólida que se materializa no corpo.

Acontece que o corpo tem sintomas dependendo da zona onde é afetado… o meu é o sistema nervoso que acaba por afetar a minha capacidade motora. Pessoalmente, tenho tido problemas de marcha… tenho de andar mais devagar ou tenho de me apoiar se precisar, o que tem acontecido. Por exemplo, em 2020 eu deixei de poder ir à rua tantas vezes e acabei por ganhar receio de andar, parece que nos vamos esquecendo e por isso é importante praticarmos exercício físico e mantermos um estilo de vida saudável.

É também importante procurarmos uma boa equipa médica – uma equipa de neurologia, no meu caso – porque temos de continuar a fazer a nossa vida e as equipas médicas estão cá para nos ajudar neste sentido; e é bom que eles falem connosco… tenham uma mente aberta que nos possa colocar mais à vontade. Eu sou acompanhada por uma boa equipa e faço medicação convencional… mas claro que o meu sonho é deixar a medicação até porque eu acho que não é sempre a piorar, antes pelo contrário… acho que faz parte do processo mas depois também há um caminho de volta.

No teu livro “A Doença: o Meu Maior Mestre”, referes que o teu corpo que te deveria proteger acabou por desenvolver uma doença autoimune que te debilita. Como é que lidaste emocionalmente com isto? É aqui que a consciencialização espiritual surge na tua vida?

Eu adorava ler livros sobre espiritualidade e auto-conhecimento, sempre gostei mas tive um certo período sem ler, estive um bocadinho desligada. Quando sou diagnosticada isso volta tudo e pensei “Está na hora!”. Foi uma luz que se abriu… isto até pode parecer estranho, mas senti-me livre. Para mim foram mais difíceis os anos que eu tinha sintomas e não sabia o que era do que propriamente do que quando soube que estava doente.

Achas que esse resgate, digamos assim, da tua consciencialização espiritual e, sobretudo, a união do corpo, da mente e do espírito, uma das formas que encontraste para ultrapassar a dor e transformá-la em processo de cura?

Não é fácil responder a isto… não tenho uma resposta directa. Na altura, senti-me livre… senti que tinha um motivo suficientemente forte para não ir em frente com determinadas coisas na minha vida. Mas isto pode ser perigoso – uma coisa é aproveitar o momento da melhor forma, ou seja, é a condição que tenho e portanto vou usá-la da melhor forma para mim – é importante que, agora, exista um distanciamento mas já não preciso da doença para dizer “Não”… ela foi de certa forma impulsionadora mas é complicado depois agarrarmo-nos emocionalmente a essa bengala. Eu, por exemplo, não quero que doença fique porque eu preciso dela… na verdade, eu não preciso.

É importante criarmos este desapego e tem de ser um compromisso diário. Tal como a Diana que tinha aqueles pensamentos, emoções e padrões e que de certa forma ajudou a criar uma doença, eu também posso criar uma Diana que, no futuro e independentemente da condição física, possa melhorar total ou quase totalmente. A mente é uma ferramenta criadora.

Na tua opinião, é a união das medicinas convencionais com as ditas alternativas o caminho a seguir no futuro?

Sim, acho. E acho que no futuro a medicina convencional não vai ser suficiente. Nestas doenças mais complexas – as auto-imunes e as crónicas – é preciso ir à causa, ver qual é o padrão e a razão pela qual ajudámos a construir o corpo doente. Pode não ser um processo fácil mas é necessário. Existem pessoas que podem melhorar com apenas uma mudança de alimentação, com simples remédios convencionais, etc. mas isso é só estar a camuflar o padrão…

Que práticas espirituais encetaste, no teu caso?

Vou só deixar aqui uma nota e sobre a epigenética que até tem sido alvo de últimos estudos científicos ao nível internacional – ou seja, estudos que têm vindo a revelar que não são os genes que controlam a nossa vida. O gene tem a sua percentagem de importância, mas o mais importante é o ambiente que nos envolve e as crenças que carregamos e que podem mudar mudar muito a expressão do gene. É importante que as pessoas comecem a pensar nisto… e isto não é espiritualidade; a mente é algo que faz parte do nosso corpo… quando nós pensamos, estamos a pensar dentro do corpo, são reações bioquímicas que afetam o nosso sistema imunitário, as nossas células e, por isso, é muito importante fazer o trabalho corpo-mente.

Em relação à parte espiritual, eu faço meditação diariamente e é algo que eu gosto mesmo de fazer. Há uma meditação que é a meditação criativa e que, na minha opinião, é muito importante para uma pessoa que tem problemas físicos – eu já falei aqui dos meus problemas de marcha… estava a ser muito difícil imaginar-me a andar bem e até nos meus sonhos já estava com limitações nesse sentido e isto é uma prisão mental; se tu não consegues imaginar que estás fora disto, será também muito difícil criares algo que não seja a tua realidade. Eu própria pensava “Bolas, mas se eu não consigo imaginar-me a andar bem como é que eu vou mandar esta mensagem às minhas células?” E comecei a desesperar, comecei a entrar numa prisão mental.

Foi quando eu encontrei esta meditação que adoro e que já pratico há uns meses e onde basicamente imagino-me a caminhar enquanto estou a meditar e, aqui, consigo andar, correr, rodopiar… isto é super importante porque agora o meu corpo lembra-se do que é isto. Para verem a diferença, passados alguns meses, eu agora sinto a necessidade de mexer o corpo. Esta é uma mudança muito importante: o corpo lembrou-se e agora quer; temos de ensinar o corpo novamente, requer tempo mas o corpo aprende.

Atendendo ao cenário pandémico atual em que vivemos e ao facto de termos estado no ano passado e também neste iniciar de 2021 muito sozinhos e/ou privados de fazer aquilo que estávamos habituados a fazer, acreditas que talvez tudo isto nos obrigue ou nos impulsione, pelo menos, a olhar mais para nós próprios e a desenvolvermos uma filosofia de vida que vá ao encontro de um equilíbrio entre o corpo, a mente e o espírito?

Sem dúvida alguma. Sem falar nos efeitos negativos desta pandemia e que existem efetivamente, a verdade é que o tempo parou e não vamos ter novamente uma oportunidade destas… está mesma na hora de olhar para dentro e perceber se estamos bem em termos de trabalho, se estamos bem em termos de relações, ou seja, o que é que está bem no nosso mundo e o que é que temos de mudar. Acho que não vamos ter outra oportunidade de auto-análise como esta e se há alguma coisa que na nossa vida não está bem, então temos de começar a criar condições para alterar isso. A nossa casa é um sítio muito simbólico – a casa também é o nosso corpo, as nossas relações, os nossos pensamentos, os nossos padrões… é muito importante começarmos a limpar aquilo que não nos serve mais e esta é uma bela oportunidade para isso.

Que dicas deixas às pessoas que passaram e passam por situações similares às tuas, às pessoas que se encontram numa fase da vida que não têm nada em que se apoiar e até mesmo às leitoras do blog da DFS?

Em primeiro lugar, aconselho a que as pessoas olhem para aquilo que estão a viver e tirem um bocadinho do seu dia – meia hora é suficiente – para escreverem as coisas boas que a situação lhes trouxe; isto porque eu acredito piamente que as situações que vivemos podem ser mudanças de direção muito importantes e então vamos, pelo menos, dar uma oportunidade para que essa mudança se revele. E é importante fazermos isto sem ódio, com distância emocional… pode ser uma tomada de consciência muito importante.

Diria também para usarem essa situação como um trampolim para a mudança, sem se apegarem… podemos usar temporariamente a dor para mudar as situações mas não podemos nos apegar, não podemos achar que aquela situação vai durar para sempre.

Além disso e direcionando esta última dica para as pessoas com algum tipo de doença, o nosso sistema imunitário é muito mais sábio do que aquilo que nós pensamos e não devemos tirar esse poder ao nosso corpo… com compromisso diário podemos começar a dar-lhe o devido valor que ele tem, podemos deixar que ele se manifeste.

Entrevista realizada por Ana Gonçalves em Janeiro de 2021

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