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Obrigada, Pai!

Talvez pelos seus 19 anos, havia quem não acreditasse que fosse capaz de criar uma família com a responsabilidade necessária, ou esperada. Casou e pouco depois a família aumentou.

O sonho de ser pai passou a realidade. Uma menina, nasceu nos seus braços.

Naquele momento teve a certeza que a sua vida nunca mais seria a mesma. A responsabilidade de um ser, tão indefeso, tão sensível, delicado e desprotegido estava à sua frente.

Os dias, meses, anos foram passando e tornaram-se inseparáveis. O medo e incerteza da paternidade transformou-se em segurança e em exemplo de coragem. A ligação e cumplicidade era tanta que a notícia (esperada) de ter que cumprir o serviço militar caiu como uma «bomba». O aperto no coração, a tristeza e a saudade que ele sentia arrebataram-lhe o coração. Ainda hoje recorda os momentos em que chorava em silêncio na despedida, semana após semana, durante 16 meses.

A despedida contrastava com a alegria da chegada. A menina, já crescida, esperava ansiosa a passagem dos dias. Ouvia, dia após dia… faltam 5 dias para o pai voltar. Falta 1 dia para o pai voltar…

O comboio chegava ao fim da tarde, os dias eram longos, a ansiedade era muita. A proximidade da casa à estação dos comboios permitia ouvir o estridente silvo ao chegar à estação. Passados uns minutos:

 – O pai está a chegar, vai esperar ao portão de casa.

Nesse momento os olhos da menina estavam focados apenas num sítio, a curva ao fim da rua. Era lá, quando o pai aparecia, o reencontro.

Mal passava a curva o pai parava, pousava o saco que trazia às costas. Ainda fardado (tanta era a vontade daquele abraço), baixava-se, abria os braços para agarrar a menina que, entretanto, corria pela rua abaixo, direita àquele abraço, de amor, de protecção, de alegria, de saudade, o  abraço do pai.

O serviço militar acabou, a cumplicidade e ligação era indiscutível. Quando o pai chegava do trabalho, a menina era a sua companhia. Nos trabalhos da casa, nas saídas, até nos hobbies do pai.

Tardes de Primavera, longas de conversas, de ajuda, acompanhadas sempre de aprendizagem. A menina estava a crescer.

O pai, era um exemplo pela sua força, determinação, coragem, assertividade e protecção.

A menina transformou-se numa mulher. Numa mulher determinada, ousada, corajosa e capaz de encarar o mundo real de igual para igual.

Aprendeu que o mundo pode ser injusto, mas não é por isso que não seremos justos. Aprendeu que a honestidade e verdade são as melhores armas para lutar.

Aprendeu que os desafios são para ultrapassar cerrando os dentes e mesmo com medo seguir em frente. Aprendeu a defender-se fosse qual fosse a guerra.

Aprendeu que não precisamos ser os melhores desde que façamos sempre o nosso melhor. Aprendeu que é através do trabalho que se conquistam os nossos sonhos.

Aprendeu a ser responsabilizada pelas suas escolhas e que não é admissível não ter opinião. Aprendeu que não devemos abrir mão dos nossos valores e da nossa identidade.

Aprendeu que era capaz de tudo desde que trabalhasse para isso. Aprendeu a não se deixar intimidar e maltratar por ninguém.

Aprendeu que não tem mal ser diferente e não pertencer à maioria.

Aprendeu a ser grata.

Aprendeu a ser feliz apesar de momentos de infelicidade. Aprendeu a ter Amor-Próprio.

O pai que vos tenho falado é o meu Pai, a menina sou eu.

Homem imperfeito, mas que fez tudo para ser um pai o mais perfeito possível. Eu considero-o perfeito.

Devo dizer que fez um excelente trabalho.

Passaram quase 43 anos desde aquele dia, em que nasci nos seus braços, tinha ele 19 anos, estava assustado não sabia bem o que fazer. Fez o mais simples, que por vezes parece complicado, abriu o coração e deu o melhor que sabia, amor, protecção, segurança e preparou aquela menina para ser uma mulher.

Sou muito grata por ter passado tantos momentos com o meu pai, não há melhor presente, partilhas, confidências e aprendizagens.

Dedico este texto a este homem, ao José Luís Oliveira, o meu pai.

Esta foto é real, não precisa de legendas … está cá tudo!

Aquela menina continua aqui, de braços abertos para o nosso abraço.

Obrigada Pai!

Sandra Oliveira
Economista / Coach

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